Trinta por cento dos homens brasileiros têm ejaculação precoce. Quarenta e oito por cento já vivenciaram o problema em algum momento da vida. São dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e de pesquisa realizada pelo Datafolha em parceria com a plataforma Omens em 2022. São números que impressionam, mas o que mais chama atenção é o silêncio que os acompanha.
Datafolha / Omens, 2022
A ejaculação precoce (EP) é a disfunção sexual masculina mais comum, com prevalência estimada entre 20% e 30% dos homens ao longo da vida, segundo revisão publicada no Einstein Journal (Waldinger, 2024). E ainda assim, poucos homens falam sobre isso abertamente, poucos procuram ajuda, e muitos que chegam ao consultório levam meses, às vezes anos, carregando esse peso sozinhos.
A Sociedade Internacional de Medicina Sexual (ISSM) define a EP como a ejaculação que ocorre sempre ou quase sempre dentro de um minuto após a penetração, acompanhada de sofrimento pessoal ou interpessoal significativo. Essa definição é importante porque tira o foco do “tempo” e coloca no impacto — o quanto isso afeta a vida da pessoa e do casal.
O que acontece no corpo, mas começa na cabeça
A EP tem causas múltiplas: biológicas, hormonais, neurológicas. Entre os mecanismos biológicos, pesquisas indicam que o nível de serotonina central tem papel fundamental no controle ejaculatório — sua ação inibitória sobre a libido e o orgasmo é bem documentada na literatura (Porst et al., Revista Brasileira de Medicina, 2012). Mas os fatores psicológicos têm papel central na maioria dos casos clínicos.
Ansiedade de desempenho, medo de não satisfazer o parceiro ou parceira, histórico de relações sexuais apressadas, vergonha acumulada ao longo de anos. O ciclo que se forma é cruel: a ansiedade acelera a ejaculação, a ejaculação precoce aumenta a ansiedade, e a ansiedade aumentada torna a próxima relação ainda mais difícil. Silva e Maia (2008), em estudo publicado nos Cadernos UniFOA, descrevem esse padrão como uma estrutura relacional que se consolida ao longo do tempo e precisa de intervenção especializada para ser modificada.
O corpo responde ao que a mente carrega. Quando há muita pressão interna para performar bem, o sistema nervoso entra em estado de alerta, e esse estado não combina com prazer.
O que a terapia sexual e a psicoterapia oferecem
A terapia sexual trabalha com esse ciclo de dentro para fora. Revisão publicada no Einstein Journal (Waldinger, 2024) aponta que as técnicas comportamentais — como a técnica start-stop e a técnica de compressão, desenvolvidas por Masters e Johnson — são a base do tratamento psicoterápico há décadas, e têm demonstrado eficácia especialmente quando associadas a abordagem das cognições envolvidas.
A A Terapia Sistêmica, ao explorar os padrões relacionais e o contexto em que a disfunção se desenvolve, oferece uma perspectiva ampla sobre o problema. O trabalho com o sistema — incluindo o casal e as dinâmicas de comunicação — é central nessa abordagem.
O tratamento multidisciplinar como padrão-ouro
A literatura científica converge para uma conclusão: o tratamento mais eficaz é o multidisciplinar. Isso significa integrar psicoterapia, terapia sexual e, quando indicado, avaliação médica e possível uso de medicamentos como os ISRSs (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) sob supervisão do urologista. A psicoterapia não é complemento — é parte central do processo.
O Portal da Urologia Brasileira reforça que o acompanhamento semanal com psicoterapeuta, com sessões de 50 minutos, é o formato mais eficaz, pois permite o trabalho contínuo sobre os padrões do paciente e, quando possível, do casal.
A conversa que precisa acontecer
Um dos primeiros passos que proponho em sessão é a conversa com o parceiro ou parceira. A EP raramente é problema de um só. Ela acontece dentro de uma relação, e quando o casal consegue falar sobre isso sem julgamento, a pressão diminui consideravelmente — o que, por si só, já produz mudança no padrão.
Se você está passando por isso, saiba que existe caminho. E que pedir ajuda não é fraqueza. É o passo mais corajoso que existe.
Referências científicas
- Waldinger, M. D. (2024). Premature ejaculation: is there an efficient therapy? Einstein Journal of Biology and Medicine.
- Porst, H. et al. (2012). Ejaculação precoce: revisão de literatura sobre novos tratamentos. Revista Brasileira de Medicina.
- Silva, A. L.; Maia, A. C. C. (2008). A evolução da sexualidade masculina através do tratamento da ejaculação precoce. Cadernos UniFOA.
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Dados epidemiológicos sobre disfunções sexuais masculinas no Brasil, 2021–2022.
- ISSM – International Society for Sexual Medicine. Definition of premature ejaculation. 2008 (atualizada 2014).
Esse tema ressoa com algo que você está vivendo? A terapia pode ser o espaço certo para aprofundar isso.
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